Musiquinha de Ben Harper, para embalar a minha escrita, lida por ninguém, num canto que parece ser só meu....
Estou a brincar com as minhas Barbies, a criar as minhas histórias de final feliz, em que a Barbie princesa casou com o Ken e tiveram muitos filhos. Toda feliz pergunto ao meu pai se quer ver o casamento da minha barbie, ao que ele me responde “Mais logo, filha.” Depois do tão esperado casamento, deixo a brincadeira e vou para a sala, onde se encontra o meu pai. “Pai, sabes quando for grande quero ser princesa.”, ao que ele responde “Tu já és a minha princesa, filha.”, ao que repondo com um sorriso inocente. A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada retiraram me de dentro da minha cabeça. O meu comboio também já vinha. Lá entrei dentro do comboio, sentei-me na janela, em frente a um casal de velhotes e o comboio arrancou. Lá estava eu, em mais uma jornada diária. Olhei para os velhotes, pareciam ter o seu “final feliz”, como aqueles que eu criava em criança. Os seus dedos entrelaçados e os seus olhares de grande cumplicidade, transmitiam o carinho e respeito que existia naquele silêncio. A paixão provavelmente já ficou lá atrás no tempo, perdida, mas ficou a amizade, o respeito e as lembranças do caminho que percorreram juntos. Nos bancos ao lado encontrava-se um casal com os seus 16 anos, que se beijavam com loucura, e este casal que se encontrava à minha frente observava e sorria, talvez recordando aquilo que eles próprios já fizeram e sentiram. Observando este momento, faz-me acreditar, novamente, que existe o tal “final feliz”, simplesmente não é aquele que idealizava em criança. Ao olhar para a janela, vou apreciando a vista das montanhas e do rio que segue, ao lado da linha do comboio. Nos 20 minutos de viagem revivo o passado, analiso o presente e crio mil e um futuros. Mas quantas almas no mundo não o fazem, em tantas janelas… olho à minha volta, no comboio, e encontro pelo menos mais 3 olhares perdidos no horizonte. Procuramos todos respostas… respostas do que devemos fazer, ao que devíamos ter feito, ao que faremos, o que fomos, o que somos, o que seremos… infinitas perguntas e respostas… Entretanto apercebo-me que estou a chegar à estação em que devia sair, penso se deveria sair, voltar para trás ou até continuar até à última paragem. No último momento, saí e enfrentei o frio e a caminhada. Apesar de me custar, fiquei satisfeita por ter descido do comboio naquela estação. A estação do presente, onde luto por aquilo que será o meu futuro, pelo meu “final feliz”.